drama diario especial riocenacontemporanea


7-8!
dezembro 16, 2008, 7:07 pm
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Olá queridos,
Quem escreve é Larissa Câmara.
Deixo registrado os meus votos de vida longa ao festival RIOCENACONTEMPORÂNEA!

filipeta

Para os leitores segue meu texto 7-8!
Postado no site dramadiario.com
Tema – Drama Diário
Por favor, divirtam-se!

7 – 8! (Sete Oito! Ira por Larissa Câmara)
(Ator em cena se prepara, alinha o corpo, respira e tenta fazer ponta de ballet. Tenta novamente e pára. Tenta mais uma vez ficar na ponta dos pés. Pára. Respira fundo. Prepara-se. Fala com determinação)
– Sete, oito!
(Arma o corpo, alinha o tronco rapidamente aos poucos vai andando na ponta dos pés e começa freneticamente a movimentar os braços como se fosse uma garça. Exibe graça e elegância. Sente mais uma vez um desconforto nos pés e pára. Cai no chão. Fica decepcionado. Segura os tornozelos com dor. Percebe que vai se irritar e ficar descontrolado. Respira fundo. Sorri tentando não se irritar. Alonga o tronco puxando uma linha imaginária sobre a cabeça).
Allongé! (pausa) Eu sou o primeiro bailarino da companhia e por isso todos me invejam! É o preço que se paga por ser o melhor, único, absoluto! Reinei absoluto nas manchetes, nas capas de segundo caderno, nos tablóides internacionais. Reinei, é verdade, mas um Rei jamais perde a sua majestade! Engraçado, não sei porque pensei nisso hoje, mas parece que sonhei com o sorriso da Monalisa. Monalisa… Para mim ela não é nada além de uma pessoa muito feia que deu certo. Enfim, não penso muito nisso porque não sou feio, até o meu Cou-de-pied é admirável. Mas, não é disso que eu estava falando… eu falava da Monalisa, lembro que, numa das noites da última turnê, jantei num restaurante que tinha uma imagem enorme da Monalisa. Não sei a razão da presença dessa feia nos lugares, como se a imagem da Monalisa emprestasse credibilidade aos restaurantes. Eu comia, olhava para ela e pensava: horrorosa, gorda, deselegante. Aposto que ela seria incapaz de um simples En Dedans. (Fica na ponta dos pés. Arma-se para dançar, mas executa os movimentos com deselegância) Naquela noite senti um mal estar horrível; nos dias que se seguiram, uma sensação desagradabilíssima. Como se minhas noites no palco fossem um ato digno de vergonha. Eu ouvia dentro da minha cabeça um coro de crianças gritando: Shame on you!!! (Gira) Detesto sair do palco e pensar que não foi bom, que seria melhor ter cancelado tudo. (Segura nos tornozelos e grita sem som) Os tendões que eu cortei para exaltar a beleza da minha dança… (grita) Ah, Pointe! Plié! (Abraça o próprio tronco e grita sem som) As costelas que eu retirei para aumentar minha flexibilidade. (com raiva de si mesmo) Pas de bourée! (pausa) Tudo doía tanto. Eu sentia febre. Meu cirurgião parecia tão confiável… Aconteceu o que me parecia impossível! Sim, sofri na Europa. Sorvia minha sopa após um lamentável Grand Pas de deux. Grand Merde, Merde! E Monalisa desgraçada, sorria! Ria de mim. Ah! Quando eu ia furar os olhos da desgraçada com a minha colher, ouvi meu substituto falando no celular. Ele parecia muito feliz, realmente a alegria de Monalisa é contagiante, pensei. Ele agradecia, fazia declarações de amor e sorria. As últimas palavras que ouvi: obrigado meu amor, você é maravilhoso, ele está cada vez pior. Em breve serei o primeiro. E desligou. Eu não podia acreditar: meu substituto amante do meu cirurgião! Tudo estava explicado. O mundo conspirava contra mim. Olhei mais uma vez para o sorriso da gorda enigmática e cuspi toda a minha sopa. Cuspi meu ódio. Fui para o meu quarto, mas não consegui dormir, fiz a única coisa que me acalma: Déboulés. (gira em torno de si mesmo) ira; cólera; zanga; indignação; raiva; desejo de vingança. (pára de girar e sorri) Desejo de vingança! Pas de Chat! (pausa) Engraçado como as fatalidades acabam com a vida das pessoas. Meu substituto foi espancado, é incrível como a violência se manifesta também na Europa. Se sobrevivesse seria incapaz de dançar, destruíram seus membros inferiores, morreu sem fazer um demi-plié. Meu cirurgião também se foi, acidente de carro. É impressionante, como os freios falham nas horas mais impróprias. Morreu carbonizado, uma bela morte para quem desejava terminar cremado, não deixa de ser prático, não é mesmo? Ah, tomei gosto! Resolvi me vingar da sociedade que me esqueceu. Fiz amigos, na cidade de São Paulo, PCC. No Rio de Janeiro os comandos do morro estão comigo. Voltei a brilhar nos jornais. Estou no topo, nas manchetes. Planejo com cautela. Allongé! 1, 2, 3, 4, 5, 6, Grand Jeté! Antes de puxar o gatilho, Allegro, 7, 8! (pega os jornais que estão no chão, lê rasga, come, lambe, joga para cima. Deleita-se em passos de ballet e déboulés) Assassinatos, roubos, conspirações, pizzas, chacinas, déboulés, plié, ônibus queimados, tiroteios, arrastão, guerra, petróleo, bombas, Kill Bill, Kill Bush, SUS, Suzane, Free Mike Tyson, Free Winona Rider, Avant, Em! Attitude! Collor, Clodovil, Congresso, PM, PQP, Ira, Ira, Irã, Iraque, Terror, Terroristas. Assemblé! 7, 8! (repetições das palavras até a exaustão, podem ser utilizadas manchetes do jornal atual) (Segura os jornais e gargalha) Estamos Sob o Signo da Ira!

FIM

Allongé – Alongado, estendido, esticado. Exemplo: arabesque allongé.
Cou-de-pied – Peito do pé. A parte do pé entre o tornozelo e a base da panturrilha é chamada de cou-de-pied.
Dedans, En – Para dentro. Em passos e exercícios o termo en dedans indica que a perna, à terre ou en l’air, se mexe em movimento circular em sentido anti-horário de trás pra frente. Por exemplo, em rond de jambe à terre en dedas. Em pirouettes o termo indica que a pirouette é feito para dentro em relação à perna de base.
Allegro – Vivo, esperto. Para todos os movimentos brilhantes e vivos. Todos os passos de elevação tais como entrechats, cabrioles, assemblés, jetés etc. obedecem a esta classificação. As qualidades mais importantes que se deve ter em mira num allegro são a leveza, a suavidade, o balanço e a vivacidade.
Déboulés – Rolando como uma bola. Um passo onde o bailarino dá várias voltas em torno de si mesmo avançando para o ponto onde sua cabeça está fixada. A cabeça deve girar antes do corpo. É feito em demi-pointe ou em pointe.
Demi-plié – Joelhos meio dobrados. Todos os passos de elevação começam e terminam com um demi-plié. Ver plié.
Pas de deux, Grand – Dança a dois. Diferente do pas de deux simples que tem uma estrutura definida. Em regra geral o grand pas de deux divide-se em cinco partes: Entrée, Adage, Variation para o bailarino, Variation para a bailarina e o Coda, no qual os dois dançam juntos.
Pas de Chat (pulo do gato) – Através de um demi-plié, as duas pernas saltam e ficam dobradas no ar ao mesmo tempo que avançam de lugar. Os pés permanecem esticados.

Jeté (jogado) – Salto de um perna para outra.
Assemblé – Juntos ou reunidos. Um passo no qual um pé escorrega pelo chão como num tendue, é jogado ao ar, e nesse momento, o bailarino levanta a perna de apoio, esticando os dedos dos pés. Ambas as pernas vão ao chão, uma após a outra, em 5ª posição.
Attitude – Uma determinada pose do ballet tirada por Carlo Blasis da estátua de Mercúrio por Jean Bologne. É uma posição numa perna só com a outra levantada para trás com o joelho dobrado num ângulo de noventa graus e bem virada para fora para que o joelho fique mais alto do que o pé. O pé de apoio pode ser à terre, sur la pointe ou demi-pointe. O braço do lado da perna levantada é mantido por cima da cabeça numa posição curva enquanto que o outro é estendido para o lado. O attitude também pode ser com a perna levantada para a frente.
Avant, En – Para a frente. Uma direção para a execução de um passo. Usado para indicar que um determinado passo é executado para a frente. exemplo: assemblé en avant.



AO CAMARIM DA BAILARINA
dezembro 16, 2008, 5:18 pm
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Aqui quem escreve é Larissa Câmara.
Abaixo uma pequena (quase) descrição de uma das atrações mais festejadas do Riocena:
Instalação em trânsito – uma homenagem a Piero Manzoni, Marchel Duchamp, Yoko Ono e Barão de Munchausen.
A hostess Bailarina de Vermelho o esperou na Casa de Cultura Laura Alvim para visitas desviadas e abriu as portas de seu camarim, um misto de boudoir, vernissage e zona intermediária, um cais aberto durante todo o festival. A musa flamejante recebeu em seu toucador amigos, fãs, alunos, ex-amantes e o público em geral, com doces, drinks, felatios, flores, vídeos, e happy-hours surpresa. Lançamento da exposição “Fôlego do Artista”, o primeiro acervo work in progress de todos os tempos, (a Yoko treebute) .

Isso não é um retrato ou foto autografada da Bailarina de Vermelho

Isso não é um retrato ou foto autografada da Bailarina de Vermelho



OPEN SPACE
dezembro 16, 2008, 4:51 pm
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Queridos,
Aqui quem escreve é Larissa Câmara faço parte do dramadiario.com e participei do Open Space.
Quero dividir com todos a mensagem que ficou para mim após os encontros:
“TEATRO MATA A FOME DA CABEÇA”



CONTINUE…
dezembro 16, 2008, 3:10 am
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Acharemos uma maneira de manter viva esta ponte com os Dramadiarios. Pra quem não compareceu, nao foi no Festival contunue nos acessando !!



O fogo universitário!
dezembro 7, 2008, 11:29 am
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Quem escreve é Felipe Barenco e sou recém-formado no curso de Direção Teatral da UFRJ. Como o tema desse ano é “acesso” e, por vir do circuito universitário, sei o quanto era importantíssima a mostra de teatro universitária organizada pelo riocenacontemporânea como forma de “acessar” a cidade.

Por isso faço questão de registrar a falta da mostra paralela esse ano e torço para que aconteça no próximo! Era uma possibilidade incrível de conhecer as produções universitárias de todo o país e permitir que elas também esquentem os palcos.

E para os diretores contemporâneos, deixo aí as minhas 21 leis!

Um grande abraço a todos

“21 leis para quem quer ser um diretor contemporâneo”

1. Monte uma cena toda em preto e branco, utilizando apenas alguns detalhes destoantes. (Outra dica pra não errar: acessórios vermelhos)

2. Termine o espetáculo assim como ele começou, pra passar uma idéia de ciclo.

3. Apoie sua montagem num jogo, de preferência num tabuleiro de xadrez, onde cada ator represente uma peça. Claro, conclua com xeque-mate.

4. Nomeie seu espetáculo de ‘Processo’ e não o termine NUNCA!

5. Nomeie seu espetáculo de ‘Performance’, mesmo não sabendo o que isso é direito.

6. Utilize uma mesa que se transforme em tudo; ora cama, ora porta, ora parede… e mesa mesmo.

7. Nada de figurinos pesados: todo mundo de cinza e descalço.

8. Monte um clássico e faça a readaptação no nordeste ou na favela.

9. No cenário, o chão deve ser de barro, areia, mato ou café. Algo simbólico e que suje bastante.

10. Excite os 5 sentidos do público (ou 6, se conseguir), embora isso se resuma a acender um incenso, jogar água na platéia, servir vinho, encostar numa parede e mandar tomá-los no cú.

11. Misture dança, teatro, música e artes plásticas e não faça nenhum dos 4.

12. Coloque algum aparelho elétrico ligado. De preferência uma cafeteira.

13. Diga que todo o seu processo com os atores se baseou em view point.

14. Convide alguém famoso pra dizer que indica a peça no programa, mesmo sem ele nunca ter assistido.

15. Monte em arena e delimite o espaço público-platéia com giz. Ah, se quiser sofisticar, filme e exiba as reações do público ao vivo num telão.

16. Ensaie seus atores com yoga, karatê, ginástica olímpica, box e meditação. Menos com teatro.

17. Crie maneiras de interagir com o público. Entregue fones de ouvido tocando um lounge bem blasê e/ou algum texto de auto-ajuda, enquanto os atores fazem “partituras de movimento”.

18. Crie a sua própria trilogia e/ou Manifesto.

19. Coloque algum ator fazendo um depoimento pessoal no microfone.

20. Pra ser contemporâneo, tem que ter secreção. Peça para o ator suar bastante ou cuspir em cena.

21. Por fim, limite o número de espectadores – de preferência 3 – e lote todos os dias.

É infalível!

MANUAL DO ARTISTA CONTEMPORÂNEO de Felipe Barenco >> O guia contemporâneo mais completo da atualidade para quem quer ser um artista nos dias de hoje. Em breve nas livrarias!



um exercício
dezembro 6, 2008, 5:01 pm
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salve.

aqui quem escreve é o rodrigo nogueira.

também faço parte do dramadiário e no dia 13 vou apresentar no riocenacontemporanea “Madrigal em processo”, com o meu coletivo, a pequena orquestra.

por ora, deixo um texto que eu fiz quando o tema era relacionamento.

um exercício (tanto pra mim, quanto pra quem lê).

O ETERNO RETORNO, de Rodrigo Nogueira
Ele: Eu vou te deixar.

Ela: Você vai fazer o quê?

Ele: Você ouviu.

Ela: Eu não ouvi.

Ele: Eu não te amo mais.

Ela: Não se diz mais isso no século XXI.

Ele: A vida é curta.

Ela: Toma um remedinho.

Ele: Eu não estou bem.

Ela: Eu já disse o que fazer…

Ele: O quê?

Ela: Eu quero que você me beije.

Ele: Eu quero que você entenda.

Ela: Crise é bom.

Ele: Eu preciso da tua ajuda.

Ela: Então tira a roupa.

Ele: To me sentindo sufocado.

Ela: Por acaso sou eu que te deixo assim?

Ele: Eu to com uma cara péssima.

Ela: Toma um remedinho.

Ele: Você acha que isso passa?

Ela: Isso passa.

Ele: Eu to ficando com medo.

Ela: Ainda bem.

Ele: A gente tá junto há tanto tempo…

Ela: Todo mundo precisa passar por um momento desses.

Ele: Ontem, quando a gente transou, eu só conseguia pensar na Finlândia.

Ela: Finlândia?

Ele: Agora eu tô com uma coisa com Finlândia.

Ela: Teve uma época que você tinha fixação na orelha do Lima Duarte.

Ele: Eu não consigo parar de pensar em você congelada.

Ela: Que loucura.

Ele: Eu fico pensando no futuro e só me vem a imagem de bolos solados.

Ela: Relaxa e pronto!

Ele: É estranho. Eu não consigo relaxar.

Ela: O seu nariz tá tão bonito hoje.

Ele: Eu vou parar de pensar bobagem.

Ela: Pára.

Ele: Você já se imaginou a trinta graus abaixo de zero?

Ela: O quê?

Ele: Você já se imaginou num lugar impossível de respirar?

Ela: Tipo quente?

Ele: To me sentindo esquisito…

Ela: Respira no azul, solta no verde.

Ele: O que eu faço?

Ela: Vem aqui.

Ele: Minha pálpebra tá palpitando e minha cabeça zunindo.

Ela: Hora de preparar alguma coisa pra comer.

Ele: Que horas são?

Ela: Não sei.

Ele: Tem aspirina?

Ela: Acabou.

Ele: Queria beber um whisky.

Ela: Fica aqui comigo.

Ele: To indo.

Ela: Vem aqui.

Ele: Me dá um abraço?

Ela: Eu faço o que você quiser.

Ele: Você é uma mulher muito especial mesmo.

Ela: Tá melhor?

Ele: Eu te amo.

Ela: Eu te amo.

Agora leia o texto DE BAIXO PARA CIMA, e descubra o que vai acontecer com este casal em outro dia.



Drama Diário aqui!!!
dezembro 6, 2008, 1:37 pm
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Oi pessoal, aqui é Renata Mizrahi, uma das integrantes do site de dramaturgia Drama Diario. Vamos postar aqui comentários, críticas, observações que vamos assistir no Riocena 2008.
Ficamos muito felizes coma a parceria.

Bem, pra quem ainda não sabe o que é o Drama Diário, eis uma breve release da gente:
Dramadiario.com reúne jovens dramaturgos do Rio de Janeiro num site que, além de divulgar os trabalhos de cada um e possibilitar novas parceiras, é um espaço de experimentação constante para novos autores. É um ponto de encontro tanto para leitores, quanto para quem busca novos textos.
Toda semana lançamos um tema e a cada dia um autor escreve uma cena curta dentro do “drama da semana”.
Trata-se do primeiro projeto deste gênero na internet e esperamos, ao longo do tempo, poder reunir e divulgar um número cada vez maior de dramaturgos
Fazem parte: Camilo Pellegrine, Felipe Barenco, Jô Bilac, Julia Spadaccini, Larissa Câmara, Renata Mizrahi e Rodrigo Nogueira.
Clique na primeira página do site do Drama Diário, na foto do autor, e verá seu currículo e alguns dos seus trabalhos.

E para começar, vou postar aqui, um texto que escrevi para o tema “jogos de poder”, que brinca com a dramaturgia “contemporânea”.

Até breve, Renata Mizrahi

O(A) TODO(A) PODEROSO(A) de Renata Mizrahi
(Hélio está no terraço da torre do Rio Sul – 40 andares – prestes a se matar.)

Hélio: Deus, eu sei que não terei perdão por esse ato, mas mais vale o inferno após a morte do que ser operador de telemarketing em vida! Adeus mundo cruel!

(Hélio vai se jogar, de repente sente uma mão puxando-o de volta. Quando ele vê quem fez isso, dá de cara com Rafa, um colega de trabalho vestido pateticamente de anjo.)

Rafa: Não faça isso, meu querido amigo, não se atire por causa de uma besteira.

Hélio: Rafa, por que você tá vestido assim?

Rafa: Pra dar mais credibilidade aos meus argumentos.

Hélio: Não tem jeito, Rafa. Minha vida tá uma merda. Tô sem mulher há mais de 9 anos.

Rafa: Que merda!

Hélio: Trabalho como operador de telemarketing há 8 anos sem nunca ter sido promovido.

Rafa: Que merda!

Hélio: Divido um conjugado com 3 senhoras esclerosadas, que pensam que eu sou o Sílvio Santos!

Rafa: Que merda!

Helio: E o pior: Eu tenho espinhas no nariz!!

Rafa: Que merda!

Hélio: Eu sou um erro, uma aberração, um equívoco da humanidade. Se eu fosse o cocô do cavalo do bandido, estaria de bem com a vida, mas nem isso! Nem isso! Adeus!

Rafa: Espera! Não deixe que esses pequenos probleminhas te façam chegar no fundo do poço. Olhe pra mim. Eu também sou um operador de telemarketing e não tenho mulher.

Hélio: Pula comigo.

Rafa: Mas Hélio, eu tenho algo melhor, que supera tudo!

Hélio: Eu sei, Rafa , eu já tentei. Meu organismo não aceita drogas. Eu ponho tudo pra fora.

Rafa: Não, não estou falando disso. Estou falando da espiritualidade! Eu encontrei o caminho espiritual.

Hélio: É isso que estou tentando fazer. Vou encontrar o caminho para virar um espírito.

(ele vai se atirar, mas na hora Rafa mostra um livro pra ele)

Rafa: Olhe, Hélio. Descobri o significado do seu nome! Sol, Hélio. Seu nome significa Sol, nosso grande astro, o grande rei, o todo poderoso.

Hélio: Não funcionou! Adeus!

Rafa: Luz! Você precisa encontrar a Luz que existe dentro de você, Hélio. A Luz está por trás de tudo. (ele pega uma vela e acende) Olhe, tome. Vai, Hélio, segure, não tenha medo. Coloque seu dedo nessa chama que te ilumina. Vai, Hélio. Coloque, não tenha medo. Viu? Não queimou. E sabe por que não queimou? Porque o poder da mente sobre a matéria sempre vencerá , até os dias em que o Messias, o salvador, limpará da Terra almas circunstanciais liberadas para a congregação divina.

(Silêncio. Hélio, um pouco emocionado com as estranhas palavras de Rafa, vai dar a mão a ele, mas desiste)

Hélio: Não funcionou, adeus.

Rafa: Hélio! Veja! (ele canta e sapateia)
Canção: “Não seja medroso, o futuro pode mudar. A vida é linda e você até pode cantar. És belo, és jovem, veja quanta aptidão. Sorria que as espinhas um dia partirão. Se não tem mulher, compre uma boneca inflável e perceba o quanto isso pode ser amável. Se não gosta do emprego, compre palavras cruzadas e leve a vida como uma piada. Olhe pra mim, eu sou um grande exemplo de um ser espiritual e com talento!” (ele sapateia como num musical. Hélio chora de depressão)

Hélio: Ó Deus! Até isso você coloca na hora da minha morte! Por que, hein? Qual o significado de tudo isso? Qual o significado de tudo isso?

Rafa: Mulher. Tá vendo essa foto? (ele mostra a foto da Marilyn Monroe) Essa é a minha prima solteira e… e… e…

Hélio: “E” o quê? Desembucha!

Rafa: Ela te quer, Hélio! Ela me disse com todas as letras e aqueles lábios carnudos. “Eu que-ro o Hé-lio.”

Hélio (um pouco animado): Sério? Como ela me conhece?

Rafa: Eu falei de você pra ela, e ela ficou MUITO excitada, muito.

Hélio (um pouco mais animado): Prova! Prova!

Rafa (no celular): Eu já estou ligando pra ela… (voz sexual em off da prima de Rafa) Escuta.

Voz: Alô? Priminho, cadê aquele tesudo do Hélio? Eu quero dar pra ele agora, tirar a roupa dele com os dentes. Arranhar ele todo, beijar tudo, tudo, tudo! (Rafa desliga)

Hélio: Ah! Ah! Eu vivo, eu vivo! Cadê ela, cadê ela, cadê ela?

Rafa: Ela está te esperando lá em baixo, no sex shop. O nome dela é Marilyn Monroe.

Hélio: Oh, meu Deus! Oh, meu Deus! Obrigado! Obrigado!

Rafa: Hã, hã…

Hélio: Obrigado, Rafa. Você me salvou da morte, me salvou do fim de tudo, da escravidão do inferno de Dante e seu cachorro louco no meio da torrente…

Rafa: Ok, ok, Hélio. Eu sei que sou bom nisso. Agora vai logo que você pode se atrasar. Foram apensas 683 reais.

Hélio: 683 reais? Mas …

Rafa: Eu te salvei da morte, Hélio, não pense que é um trabalho fácil salvar alguém, assim como você, da morte.

Hélio: Tem razão, tem razão. Eu pago. Fiz umas economias nesses meus 8 anos de trabalho. Acho que juntei o total de 683 reais, que coincidência, mas no fundo sabia que seriam gastos por um motivo muito nobre: Marilyn!

Voz de Deus, no caso a autora: Hã, hã!

Rafa: Desculpe, oh, grande chefa, poderosa autora. É que eu achei que fui tão bom como anjo que… (para Hélio) É de graça, amigo, esqueça os 683 reais.

Voz de Deus, no caso a autora: Obrigada, Rafa, parabéns pelo anjo, pode sair. (Rafa sai dançando ao som de sininhos)

Hélio: Oh, grande autora. Então era você que me mostrou a Luz e colocou aquele anjo no meu caminho. Obrigado! Estou ansioso para encontrar com Marilyn. (ele vai saindo)

Voz de Deus, no caso a autora: Espere! Acabei de mudar de idéia. Prefiro que se atire do prédio. Dá mais emoção a essa cena.

Hélio: Não! Não!Agora não dá, eu tenho hora marcada no sex shop. Não posso abrir mão do único prazer em toda a minha vida…

Voz de Deus, no caso a autora: Não posso, odiei a cena e achei você um péssimo personagem. Muito, muito clichê. Aonde já se viu alguém falar nos dias de hoje, “adeus mundo cruel”? Precisa morrer! Vou indicar um vento forte, que te empurrará andares abaixo…

Hélio: Por favor, eu não quero morrer, não faça isso comigo, não agora!

Voz de Deus, no caso a autora: Não tem jeito, Hélio. Você está fadado.

(de repente, surge um vento forte…)

Hélio: Calma, calma! E se eu mudar de texto? De autor? Eu poderia ser o chefe da Elisa e amá-la, ou jogar cartas com as velhinhas e até participar de um reality show e dançar por 4 dias! Ou mesmo, se ele deixar, poderia ser um personagem do Rodrigo para o texto de amanhã, caso ele ainda não tenha pensado em nada…

Voz de Deus, no caso a autora: Duvido muito. Duvido muito.

Hélio (desesperado): Da Larissa! Da Larissa!

Voz de Deus, no caso a autora: Ha, ha, ha, ha! Ela é uma sanguinária, adora matar seus personagens. Vai lá , vai. Pula pra sexta feira, que seus órgãos serão vendidos! Não vai chegar nem na segunda linha.

Hélio: O Jô! O Jô! Ele é um amado…

Voz de Deus, no caso a autora: Ele anda muito ocupado com “Cachorro!” Tem muito mais o que fazer! Ha, ha, ha.

Hélio: Mas dizem que você é tão alegre e sorridente! E agora quer matar seu personagem? Seu personagem que conseguiu se transformar e perceber o valor da vida, e descobrir que não vale a pena nos matarmos, que podemos dar a volta por cima e sermos felizes, que o mundo é lindo, e viva a natureza…

Voz de Deus, no caso a autora: Por favor, pare com isso, estou começando a me comover…

Hélio: E que todos nós precisamos nos amar, e que anjos, como o Rafa, que aparecem no nosso caminho, são para nos dizer que “O Caminho” ainda precisa ser trilhado, agora com sabedoria. Viva a natureza! Viva a natureza!

Voz de Deus, no caso a autora: Viva a natureza, viva o amor!

Hélio: Eu sabia, eu sabia que você se identificaria com minhas palavras!

Voz de Deus, no caso a autora: Hélio, você me parece ser tão sensível, como ousava querer se matar?

Hélio: Eu também me faço essa mesma pergunta. Como? Mas se sou sensível, é graças a você, oh, poderosa autora.

Voz de Deus, no caso a autora: Você acabou de evoluir, Hélio. Não será mais um operador de telemarketing. Você agora é o dono da Rede Globo e o melhor cineasta do mundo, mora numa casa linda nas montanhas e adora música, aliás, também toca violão.

Hélio: Obrigado, oh, poderosa autora.

Voz de Deus, no caso a autora: E esqueça a Marilyn Monroe, ela já morreu. Eu tava te sacaneando. Venha na minha casa, que eu quero te conhecer pessoalmente.

Hélio: Obrigado, oh, poderosa autora! Sei que você é muito mais bonita e gostosa que a Marilyn Monroe.

Voz de Deus, no caso, a autora: Ai, ai, fofinho! Esteja aqui às seis, sem atrasos. Ah! Você também não tem mais espinhas no nariz. Vou reiniciar o esquete:

AMOR NA NATUREZA de Renata Mizrahi
(Hélio, homem com corpo definido, bonito, inteligente e rico, vai à casa de Renata, mulher mais bonita e gostosa que Marilyn Monroe)

Hélio: Oi, você que é a autora?
Renata: Sim.
Hélio: Gosta de massagem, ouvir música, rir sobre tudo e curtir uma cachoeira?
Renata: Entra.

FIM.



Hello world!
novembro 26, 2008, 8:08 pm
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